quarta-feira, 24 de junho de 2009

"O HERÓI NACIONAL, APARECIDO GALDINO JACINTHO." “O PROFETA DAS ÁGUAS”

"O herói nacional, Aparecido Galdino Jacintho."
“O PROFETA DAS ÁGUAS” - Aparecido Galdino Jacintho, líder religioso, curandeiro, herói do rio Paraná, ou se preferir "O profeta das águas", protagonista do excepcional documentário "O profeta das águas", dirigido pelo cineasta, Leopoldo Nunes (atual diretor da Ancine).
Fiz questão de participar da sessão com debate na sala Maria Antonia do PopCine - Circuito Popular de Cinema, nesta última terça-feira "22/05/07" às 20h. O debate seria com o cineasta e diretor, Leopoldo Nunes, com o produtor da Taus Produções Audiovisuais, Reinaldo Volpato e com o esperadíssimo, Hector Babenco - bom, fiquei até às 22h 40 e, até este momento, infelizmente, o diretor Leopoldo Nunes não tinha comparecido, algo extremamente inconveniente, já que é o diretor do filme, mas, entendo plenamente a situação dos nossos aeroportos, trânsito de São Paulo, etc. O produtor Reinaldo Volpato e Hector Babenco, sem dúvida, valeu a noite.
Reinaldo Volpato é uma grande figura, divertido, extrovertido, inteligente e, com grande desenvoltura, conseguiu conduzir o público no debate. Hector Babenco... Sem palavras - quando soube que Hector Babenco estaria no debate, saberia que não poderia faltar, pois foi um momento inesquecível, principalmente para o megalomaníaco crítico cinéfilo, Ademir Pascale, eu... rs. - Troquei algumas palavras com Hector, mas percebi certo desconforto em sua fisionomia no momento do debate, acredito que devido ao “grande” atraso do diretor do filme, isso se realmente se atrasou, pois não sei dizer se de fato compareceu, não suportei aguardar tanto tempo.
No momento da exibição de "O Profeta das Águas", notei o silêncio pairar no ar. Olhos estupefatos vislumbravam cenas e fatos tortuosos de uma época que muitos ali ainda nem tinham nascido. - Não pense que verá apenas cenas tortuosas desta lamentável época, mas sim, também seqüelas e até momentos cômicos que, sem dúvida alguma, me fez considerar um dos melhores filmes documentais exibidos dos últimos anos.
"O profeta das águas", filme documental de extrema importância, gritante, esclarecedor e tortuoso para os pacifistas. É difícil de acreditar que o nosso Brasil passou por um momento tão difícil e lastimoso, chamado "Ditadura Militar". Galdino, o Profeta das Águas, foi considerado nos anos 70s como preso político, um perigo para a sociedade. Foi preso e torturado, juntamente de outros, todos torturados sem motivo algum. Em um dos relatos, fiquei sabendo que um homem foi brutalmente torturado e, depois de alguns dias, morreu devido às seqüelas da tortura, somente porque tinha o hábito de "ler muito". O protagonista, Galdino, ainda vivo, com mais de uma dezena de filhos e com mais de oito décadas de vivências, sofrimentos e injustiças, foi preso político, passou pelos presídios Barro Branco, Tiradentes, Carandiru e, posteriormente, foi considerado louco pelas forças militares e passou mais de dois anos em um hospital psiquiátrico. - Poderemos comparar Galdino com o grande líder Antônio Conselheiro "1835-1897", homem considerado santo por várias pessoas, pelo fato de curar doentes, assim como o nosso protagonista. O filme é memorável e imperdível, espero poder contemplá-lo na mídia com notícias de sua exibição em várias praças do Brasil e, não que eu seja contra aos heróis mascarados, piratas, ninjas, mini-bruxos, aranhas, tartarugas, morcegos e outros seres americanizados e hollywoodianos, mas, por favor, vamos dar um apoio ao cinema nacional, vamos voltar nossos olhos para nossos próprios trabalhos, aos nossos heróis, ao herói desmascarado, ao Aparecido Galdino Jacintho, o profeta das águas.
Brasil, 2006.
Duração: 83 min.
Gênero: documentário
Roteiro: Leopoldo Nunes
Produção executiva: Leopoldo Nunes e Reinaldo Volpato
Direção de produção: Jerson Badaró
Fotografia e câmara: Cleumo Segond
Som direto: Marcio Jacovani
Montagem: Reinaldo Volpato
Co-produção: TV Cultura e STV


Os longos anos de internação
São José do Rio Preto, 30 de Março de 2004.
Carlos Chimba
Allan de Abreu
Jonil Jacintho, 54 anos, é um sujeito inquieto. Quando fala do pai, o profeta Aparecido Galdino Jacintho, o Aparecidão, suas mãos se agitam no ar, frenéticas. O rosto fica ruborizado. Jonas, como é mais conhecido, não se conforma com o fato de o pai não ter recebido um tostão de indenização do governo depois de tanto tempo de prisão, torturas e espancamentos. “Todo o dinheiro que eu tinha, gastei com advogado para tentar uma indenização. Não consegui nada”, reclama Jonas, batendo forte com as mãos nos joelhos. Mal consegue segurar a raiva, na varanda da casa onde mora, em Mirassol. Ele cita um exemplo de injustiça ao pai que julga um dos mais escandalosos. Em 1974, Janete Clair se inspirou na história de Aparecido Galdino Jacintho para escrever a novela “Fogo sobre Terra”, que se passa na mítica “Divinéia”. A história é, em tudo, semelhante à saga de Galdino nas margens do Paranazão. Mas a Globo não pagou um centavo de direitos autorais para o profeta.
Jonas é o único dos três filhos mais velhos de Aparecidão que parece se preocupar com o pai. Os demais se afastaram, por vergonha ou raiva. Naquele início de 1971, ainda rapagão, Jonas não foi informado sobre a transferência do pai da cadeia de Estrela D’Oeste para São Paulo. “Se soubesse, não teria deixado. Teriam de me matar antes”, exagera. Jonas se mudou com a mãe para Campinas. Queria ficar mais perto do pai. O assédio da imprensa já era grande. Tanto que a fábrica de móveis onde Jonas trabalhava ficou assustada e o demitiu em pouco tempo. “Tive de vender doce na rua para não passar fome”, lembra.

Adiamentos
Do lado de dentro dos muros do manicômio, Aparecidão aguardava, ansioso, a liberdade. Em princípio, o profeta tinha data certa para sair de lá: 1º de outubro de 1972. Mas um segundo laudo psiquiátrico, de 22 de novembro daquele ano, prolongou o sofrimento do profeta de Rubinéia. “Pelo exposto, podemos verificar que o examinando apresenta distúrbios do conteúdo do pensamento - idéias delirantes de cunho místico, grandeza”, anotam os médicos Giovanni Di Giunta e Antônio João Melges. “Podemos concluir que Galdino apresenta um quadro esquizofrênico-paranóide, necessitando de tratamento, devendo pois permanecer manicomiado, para sua própria segurança e da sociedade.” Aparecidão custava a acreditar, mas os laudos se repetiam, quase uniformes.
Ninguém sabia ao certo o motivo, mas a ditadura não queria a liberdade dele. “Aparecido Galdino Jacintho continua doente, devendo permanecer nosocomiado para tratamento e por oferecer periculosidade”, concluiu o terceiro laudo, de 28 de setembro de 1973. Cercado pelos muros altos do manicômio, Galdino mal via o tempo passar. Não percebeu que, lá fora, o PCdoB começava a organizar, entre Goiás e Pará, a guerrilha do Araguaia, o mais expressivo movimento de combate ao regime militar. Em 1972, 69 militantes do partido começaram a fazer treinamentos e se prepararam para a luta contra os militares. A resistência durou dois anos, quando todos os guerrilheiros foram aniquilados na maior operação das Forças Armadas no Brasil desde a Segunda Guerra Mundial. Vieram então o quarto parecer sobre Galdino, em 21 de outubro de 1974, e o quinto, em três de novembro de 1975: “Do exposto, somos de parecer que o examinado continua doente, todavia se beneficiou com o tratamento instituído. Porém, sua periculosidade se encontra a nível superior a de um doente mental, portanto, devendo permanecer frenocomiado - para segurança da coletividade”.O general Ernesto Geisel já era presidente do Brasil: tomara posse em 1973. Surgia o projeto de abertura política, ou, como se chamava na época, a “distensão lenta, gradual e segura”. Mas Aparecidão nada sentia dos efeitos da distensão. “Eu não sabia muito bem o que acontecia no mundo. Com política não me importava, nem me importo, só penso que os homens devem se amar e se respeitar.” Vem o laudo de 13 de janeiro de 1978. Dessa vez, os psiquiatras João Moacyr de Almeida Prado e Guido Arturo Palomba observaram que Galdino às vezes ria “de modo inadequado”. Quando Jonil e a mãe o visitavam no manicômio, Aparecidão despedia-se procurando demonstrar gratidão: “Deus te abençoe, meu filho”. Segundo os médicos, ele ainda era capaz de benzer, “mas quando sair do manicômio não benzerá mais ninguém, para não criar problemas”.

Reprodução

General Ernesto Geisel tomou posse como presidente do Brasil em 1973
SúplicaEnquanto isso chovia sucessivos pedidos de hábeas corpus encaminhado por Aparecidão ao juiz-auditor da Justiça Militar. “Agora que me sinto lúcido é que vejo a insensatez de que fui tomado, ao agir de forma irracional, tanto religiosamente como com relação à desapropriação das terras que me pertenciam. (...) Solicito-lhe penhoradamente que aceite esta sincera retratação, e que dê a oportunidade a este suplicante, para que volte ao seio de seus entes queridos, bem como ao convívio da nossa sociedade”. Galdino assinou a carta. Mas é pouco provável que ele a tenha escrito de próprio punho. O profeta de Rubinéia sabia de cor muitas passagens da Bíblia. Quase repetira a saga dos Canudos de Antônio Conselheiro. Resgatara o mito do sebastianismo. Mas não sabia ler ou escrever uma palavra sequer. Só repetia no papel, mecanicamente, o seu nome por extenso.
Em outubro de 1973, Aparecidão concluiu o Mobral e se tornou um analfabeto funcional. Nessa época, passaram pelo manicômio homens perigosos, como o “Bandido da Luz Vermelha”, ladrão famoso em São Paulo na década de 60. Mas o profeta de Rubinéia, que outrora gritava tantas palavras assustadoras nos seus sermões, agora preferia ficar calado, discreto. “A vida lá é um pouco difícil e era triste ver alguns homens que nunca saíam dos quartos. Às vezes alguém mais doente ficava agressivo, porque estava mal. Por todos eles eu só rezava. Rezar era o que eu podia fazer por eles”, disse Aparecidão assim que saiu do manicômio.

Entre facas e garfos
O profeta começou a trabalhar na cozinha da instituição. “Mexia com facas, com garfos, mas nunca feri ninguém, nem pensei em machucar alguém. Eu só pensava em rezar pelos que estavam sofrendo, e isso ninguém podia proibir”, disse. “Nunca fiquei desesperado.” Desde aquela época, Galdino não gosta de tomar remédio. “Mas tinha de seguir as ordens, tomar o remédio, senão era pior”, lembra. Algumas vezes o profeta recebeu visita do todo poderoso delegado do Dops, Sérgio Paranhos Fleury. “Ele era um justiceiro, um homem que andava devagar, o passo firme. Todo mundo respeitava.” Aos poucos, o País se mobilizava em torno daquele homem que apodrecia no manicômio. Com o início da abertura do regime, a imprensa se encorajou e passou a denunciar, quase toda semana, a situação de Aparecidão, que um dia se atrevera a montar um “Exército da Força Divina” às margens do rio Paraná.
Os jornalistas paulistanos e cariocas pouco compreendiam da realidade daqueles sertões tão distantes. Mas os especialistas combatiam severamente a validade daquela pilha de laudos psiquiátricos padronizados pela imposição do regime. “Galdino, como todos os místicos, é subversivo pela fé. Esta a sua característica. E não a que a psiquiatria arbitrariamente lhe impôs. (...) Nada, conseqüentemente, justifica internação no Manicômio Judiciário, essa prisão sem julgamento de que a Justiça se vale por não poder condenar e a psiquiatria abaliza para servir à Justiça, desservindo aos seus próprios fins”, escreve a psiquiatra Betty Milan. Quanto mais próximo chegava o País da democracia, os argumentos para manter Galdino preso de pouco em pouco se esfacelavam. Até que, numa manhã meio nublada e chuvosa, veio a liberdade.

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